terça-feira, 22 de março de 2016

A política segundo Jesus


Pr. Ed René Kivitz
As relações humanas via de regra se articulam num ciclo vicioso de competição-violência-subjugação, cujo subproduto é a ciranda das inimizades via disseminação do ódio. Competimos o tempo todo, usamos a força – física, econômica, psicoemocional, e criamos sociedades vitimárias onde “quem pode mais, chora menos”, isso quando sobrevive para chorar. As relações de dominação ocorrem a partir dos ambientes familiares, ganham os páteos das escolas, as salas dos cursinhos pré vestibular, se desenrolam pelas filas de candidatos a vagas de emprego, ganham os corredores das corporações, atravessam as câmaras legislativas, disputam as urnas, aparelham o Estado, e jogam nação contra nação. Num mundo que vive a lógica do “cada um por si, Deus por todos e o diabo que carregue o último”, nada fica de fora da roda maldita cujo resultado é a estratificação social. Parece mesmo que Hobbes tinha razão quando disse que “o homem é o lobo do homem”.
Em seu chamado Sermão do Monte, Jesus de Nazaré invade o campo minado das relações de ódio e quebra o ciclo competição-violência-subjugação com um imperativo radical: amar os inimigos. Jesus é inequivocamente o mais desconcertante proponente de uma ética política (política compreendida como a arte de viver na pólis – cidade). Inusitado até mesmo para sua tradição judaica, que mandava “amar o próximo e odiar o inimigo”, o mandamento de amor aos inimigos é o alicerce singular que sustenta a política do reino de Deus: a política segundo Jesus.
A presença dos seguidores de Jesus no mundo deve ser sempre e absolutamente para promover “glória a Deus nas maiores alturas e a paz na terra aos homens”. O Príncipe da Paz não pode ser seguido senão por aqueles que se oferecem ao mundo como pacificadores.
A presença pacificadora dos seguidores de Jesus pode ser adjetivada, conforme se depreende de uma leitura do evangelho de São Lucas, capítulo 6:
. Presença solidária
Jesus chama de “bem-aventurados” os pobres, os que agora têm fome, os que agora choram, e os odiados e segregados por causa do Filho do homem. Mas pronuncia “ai de vocês” os ricos, os que agora têm fartura, os que agora riem, e os que agradam todo mundo (6.20-26).
Evidentemente, Jesus não desfere seu golpe contra os ricos, alegres, fartos e populares em razão de sua posição social. Certamente, o faz porque constata que tal posição os coloca na cadeira da indiferença, da prepotência e do abuso do fraco. O que se considera privilégio torna-se maldição quando deixa de ser partilhado e colocado à disposição do bem comum. A promessa de bênção e o vaticínio de maldição deixa claro que Deus toma partido, no caso, dos fracos, pobres, órfãos, viúvas e estrangeiros. Deus é solidário às vítimas, e os filhos de Deus devem fazer a mesma opção.
. Presença propositiva
“Mas eu digo a vocês que estão me ouvindo: Amem os seus inimigos, façam o bem aos que os odeiam, abençoem os que os amaldiçoam, orem por aqueles que os maltratam” (6.27,28).
Para promover a paz não basta deixar de fazer o mal, é preciso fazer o bem. Como bem alertou Martin Luther King Jr., a omissão dos bons é tão danosa quanto a atuação dos maus. Jesus recomenda que seus seguidores, em vez de recuarem ante o avanço do mal, marchem sobre o mal e os malvados fazendo o bem, abençoando e amando de maneira prática. Pagar o mal com o bem, eis o desafio.
. Presença sacrificial
“Se alguém lhe bater numa face, ofereça-lhe também a outra. Se alguém lhe tirar a capa, não o impeça de tirar-lhe a túnica” (6.29-31).
Oferecer a outra face não é sinônimo de não resistência, mas uma forma pacífica de resistência. Quem está comprometido a promover a paz deve ser capaz de arcar com o dano para que o ciclo de maldade e violência seja interrompido. Quem não está disposto a dar dois passos para trás, dificilmente conseguirá dar três passos para frente.
. Presença graciosa
“Que mérito vocês terão, se amarem aos que os amam? E que mérito terão, se fizerem o bem àqueles que são bons para com vocês? E que mérito terão, se emprestarem a pessoas de quem esperam devolução? Amem, porém, os seus inimigos, façam-lhes o bem e emprestem a eles, sem esperar receber nada de volta. Então [...] vocês serão filhos do Altíssimo, porque ele é bondoso para com os ingratos e maus” (6.32-35).
Jesus não é ingênuo, nem sua proposta de paz é simplória. Sabe da existência dos maus, dos hostis, dos abusadores. Mas não permite que os maus determinem sua ação. Quem deseja seguir os passos de Jesus deve se comprometer a fazer o bem a quem não o merece. A generosidade dos pacificadores não destina apenas a quem a merece, mas principalmente a quem dela necessita.
. Presença misericordiosa
“Sejam misericordiosos, assim como o Pai de vocês é misericordioso. Não julguem, e vocês não serão julgados. Não condenem, e não serão condenados. Perdoem, e serão perdoados” (6.36-40).
Fazer justiça é dar ao próximo o que lhe é de direito, seja bem ou seja mal. Agir com graça é dar ao próximo o bem que não merece. Exercer misericórdia é poupar o próximo do mal que merece. Misericórdia é (miseratio) compaixão + (cordis) coração, isto é, coração com a mesma paixão, coração compadecido, coração com o mesmo padecimento. À semelhança de Jesus, seus seguidores também “sabem o que é padecer”, e por isso são capazes de com–padecer.
. Presença profética
A constatação da existência dos maus e dos inimigos de Deus, seu reino e sua justiça, implica a consciência da necessidade da denúncia. Os pacificadores não são ingênuos. Apenas se recusam a tomar assento no trono de Deus, o único justo juiz. Como diz o poeta, “paz sem voz não é paz, é medo”. Quem faz acordo com o malvado sem denunciar a maldade, impede que o malvado enxergue seu caminho e tenha a oportunidade de optar pelo caminho da justiça e da paz. Quem não aponta para a justiça como ideal, não promove a paz como possibilidade.
. Presença lúcida
“Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão e não se dá conta da viga que está em seu próprio olho? Como você pode dizer ao seu irmão: ‘Irmão, deixe-me tirar o cisco do seu olho’, se você mesmo não consegue ver a viga que está em seu próprio olho? Hipócrita, tire primeiro a viga do seu olho, e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão” (6.41,42).
A promoção da paz não permite passionalidades e fanatismos. Quem se abre ao diálogo e busca acordos deve ser minimamente capaz da autocrítica. Quem não enxerga, não assume, e não toma providências a respeito de suas próprias falhas e pecados não têm autoridade nem credibilidade para propor mudanças nos outros. Suas palavras e propostas caem no buraco cavado pela arrogância e no vazio nefasto do fanatismo cego.
. Presença autêntica
“Nenhuma árvore boa dá fruto ruim, nenhuma árvore ruim dá fruto bom. Toda árvore é reconhecida por seus frutos. Ninguém colhe figos de espinheiros, nem uvas de ervas daninhas. O homem bom tira coisas boas do bom tesouro que está em seu coração, e o homem mau tira coisas más do mal que está em seu coração, porque a sua boca fala do que está cheio o coração” (6.43-45).
O engajamento na promoção da paz é mais do que uma estratégia para viabilizar ganhos futuros. A paz não é resultado do que a cabeça consegue contabilizar, é fruto do coração pacificado e vazio de intenções mesquinhas. Abraços falsos, longe de promoverem reconciliações, potencializam hostilidades. Para fazer as pazes é preciso oferecer a paz que vem do coração, assim como a árvore oferece a fruta que vem da semente.
. Presença coerente
“Por que vocês me chamam ‘Senhor, Senhor’ e não fazem o que eu digo?” (6.46-49).
Os pacificadores não são perfeitos. Nem mesmo Deus espera que sejam. Mas precisam ser coerentes. Implica poder afirmar como São Paulo, apóstolo: “o que ouviram e viram em mim, isso pratiquem”. E ser suficientemente grande de alma para admitir quando há discrepância entre palavras e ações, pedir perdão e colocar os pés na direção do que é belo, justo e bom. Os seguidores de Jesus não o chamam de Senhor como quem oferece deferência cerimonial, mas com devoção sincera de quem pretende realmente obedecê-lo.
Que Deus encontre e multiplique entre nós os bem aventurados pacificadores. Amém! 
  



Ed René Kivitz é Graduado em Teologia pela Faculdade Teológica Batista de São Paulo, mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo; pastor presidente da Igreja Batista de Água de Água Branca, em São Paulo; autor de Quebrando paradigmas (Abba Press), Vivendo com propósitos, Outra Espiritualidade e O livro mais mal humorado da Bíblia (Mundo Cristão); idealizador do Fórum Cristão de Profissinais.

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